A indescritível passagem do X JAPAN pelo Brasil
O X JAPAN condensa anos de espera em quase 3 horas de show e emociona a todos com uma apresentação perfeita repleta de clássico, rock e até bossa nova.

O show anunciado em maio, teve os seus ingressos VIPs esgotados quase que imediatamente, além do camarote e pista comum. Três dias antes do show, as pessoas já começavam a chegar para não perder o lugar mais próximo possível ao palco. Enfrentando frio e fome, além do cansaço e perigo de passar a noite em um lugar deserto e aberto, fãs não se importaram de se expor já que não conseguiam controlar sua ansiedade. Estar no local, mesmo três ou dois dias antes, já era sinal de aquele dia seria real.
No dia, a massa de fãs vestindo camisas da banda, blusas pretas, roupas de enfermeira (alusão ao pedido via twitter do compositor, líder, pianista e baterista da banda YOSHIKI) e até saltos altos, lotou a porta e a bilheteria do local. Frequentemente eram escutados gritos de “WE ARE X!”, o lema da banda, enquanto a fila ia aumentando até dar a volta no quarteirão. Alguns fãs, em uma atitude indelicada, iam passando a frente de outros e furando filas o que gerou em parte confusão. Infelizmente, nem a organização do evento, nem a casa de show resolveu estes e outros pequenos incidentes, o que acarretou grande insatisfação do público ali presente.
Entretanto, tudo foi esquecido assim que a banda subiu ao palco. A entrada do público só foi liberada com duas horas de atraso, às 18 horas, e o show efetivamente só começou às 20hs. Os roadies no palco pareciam ter problemas para ajeitar tanto a bateria quanto afinar o violino, e passaram bastante tempo ali na frente, fato que só aumentou a ansiedade e nervosismo dos fãs, que começaram a chamar pela banda. As oito em ponto, um instrumental denso e bem arranjado começou a tomar os ares do local, seguido pelos gritos dos fãs que se misturavam às vozes que entoavam um canto lírico. O palco ficou um breu durante um tempo até que a música assumiu um crescendo e após o agudo da soprano, YOSHIKI subiu ao palco, com seu sobretudo vermelho saudando o público de sua bateria. As pessoas passaram a se empurrar cada vez mais como se quisessem que seus gritos e toques alcançassem o líder, que era o único ponto iluminado no palco. YOSHIKI saudou a multidão com o braços cruzados em X para em seguida, Heath, Pata, SUGIZO e ToshI assumirem suas posições.
A frase mais aguardada por todos veio na voz da mulher que sempre introduz os músicos da banda: “Introducing X JAPAN” (Apresentando X JAPAN) para o delírio de todos os fãs presentes. Agora era real: os cinco estavam no palco. JADE explodiu e com ela vários fãs começaram a pular e a fazer o local tremer. A longa espera, as dores no corpo e quaisquer limitações foram esquecidas. Cada fã foi transposto para outro mundo; todos sabiam a letra de cor e, sem o menor sinal de timidez, cantaram junto a ToshI, que não conseguia esconder a sua satisfação. Empolgados, os demais músicos tocavam com força seus instrumentos. SUGIZO arrepiava os fãs com seu solo e YOSHIKI não perdoava sua bateria, que apresentou problemas em um dos pratos, sendo os roadies várias vezes requisitados para verificar o que estava acontecendo. No último refrão, YOSHIKI deu a deixa para que os integrantes parassem e a plateia continuasse sozinha. ToshI saudou-os com um “boa noite” em português e terminou a música.
“E aí, São Paulo?” – gritou ToshI. “Estão prontos? Estão prontos, São Paulo?”. Ainda eufóricos com aquele começo estonteante, os fãs não pararam de gritar quando a introdução de Rusty Nail levou todos à loucura. Cantando em japonês sem o menor erro ou dúvida, os fãs levaram a música, o que surpreendeu os artistas e fez com que eles reconhecessem o calor e o carinho do público brasileiro. Daí então, o X JAPAN não diminuiu o ritmo e se soltou completamente. Apesar do nervosismo inicial apresentado por ToshI, após ver a reação da plateia, ele se tornou mais seguro e em vários momentos no show deixou que o público tomasse a dianteira nas músicas.
A plateia se dividiu entre horas de muita emoção e horas de plena histeria. Não havia meio termo, os fãs simplesmente não paravam de levantar as mãos, de formar um X com os braços ou de pular e cantar. A cada pausa, o nome dos integrantes ou urros eram ouvidos. Todos, absolutamente todos, fãs, organizadores e banda sentiram aquele show em todos os seus poros. A música do X estava em todos os lugares e foi plena em todos os momentos. Mesmo nas horas em que o som parecia muito alto, gerando microfonia, a apresentação não pareceu ser abalada. E a animação dos integrantes era notória, com YOSHIKI lançando constantemente garrafas de água na plateia (que disputavam entre si o pequeno souvenir).
YOSHIKI levantou de seu conjunto de bateria e andou calmamente para seu piano de vidro parado solitário sobre o palco. Não precisou de mais de dois acordes e o público gritou ao som da famosa e bem recebida Silent Jealousy. À Capella, a voz tremida e forte de ToshI encheu o local sendo acompanhada por um coro de mais de 4000 vozes. Nessa música, o vocalista se firmou com seu agudo prolongado, afastando as recentes críticas de que sua voz já não era mais a mesma. Em seguida, brilharam em uma sincronia fina Pata, Heath, SUGIZO e YOSHIKI. O ritmo eletrônico e pulsante no fundo, cadenciado na salva de palmas puxadas por ToshI indicaram a próxima: a dançante DRAIN. Heath logo ocupou seu lugar ao centro, perto a primeira fileira, brincando com seu baixo.
Todos deixaram o palco para que o sexto integrante, SUGIZO trouxesse a melodia de seu violino e a surpresa da noite. Aos gritos dos fãs, ele primeiro testou seu instrumento para em seguida deslizar o arco de forma suave por ele. Em uma melodia cadenciada, que misturava momentos de doçura e violência repentina, SUGIZO arrancou lágrimas do público. Em meio a sua composição surgia MIRANDA, música recentemente lançada em seu single digital MIRANDA feat. MaZDA em junho desse ano. Após uma pausa charmosa, em que apoiou a mão do arco na cintura e observou bem o público, ele começou uma série de acordes conhecidos. Fã assumido da Bossa Nova e de Baden Powell, SUGIZO surpreendeu a todos quando começou a tocar nada mais, nada menos que Chega de Saudade de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, uma das músicas pela qual se confessou apaixonado. Enquanto continuava, não só o público, mas os roadies no palco também olhavam impressionados o solo do violinista. Em um misto de sensualidade, firmeza e devoção, ele interpretava sua própria alma a todos. Além da surpresa brasileira em seu solo, SUGIZO agraciou os SLAVES, fãs de LUNA SEA, presentes no HSBC Brasil. Um trecho bem pequeno que se assemelhava a Providence do álbum Eden de 1993 deu o ar da graça.
Há um erro em rotular o X JAPAN apenas como uma banda de rock ou visual kei. A veia clássica está muito presente entre eles, principalmente em YOSHIKI e SUGIZO. A clara percepção que possuem dos instrumentos, suas extensões e a composição de seus solos denotam claramente aformação deles que são considerados dois dos maiores músicos do Japão.
O pianista fez seu solo e emendou com o violinista uma das mais belas introduções de uma das mais belas, amadas e pesadas músicas do X JAPAN, KURENAI. O público, que já pedia impaciente por ela, simplesmente foi ao delírio quando reconheceram o início da que foi uma das melhores interpretações ao vivo da música. O assombro e emoção de ToshI se tornaram visíveis antes mesmo de a música terminar. 4000 mil vozes, que em sua maioria não sabia japonês, entoaram a canção como mantra do começo ao fim sem se confundir.
“Essa é a nossa mais nova música! Vamos todos enlouquecer pra valer! Vamos quebrar tudo! BORN TO BE FREE” - ToshI berrou após um micro solo de piano. Apesar de a próxima música ser uma das mais novas do X JAPAN, todos pareciam ter feito o dever de casa e cantaram. Com seu riff de guitarra pesado, ritmo puxando para o metal e seu refrão fácil, até os que não conheciam não demoraram a pegar o feeling e se inteirar na canção. Inclusive a versão ao vivo pareceu ainda melhor que a versão estúdio da música que circula pelo youtube. Destaque nessa música para o back vocal feito por SUGIZO, cujo microfone estava baixo, além dos momentos em que ele dominava o público com sua guitarra.
As outras duas músicas que se seguiram foram chamadas pelo solo de bateria de YOSHIKI. Ele massacrava seu bumbo, tambores surdos e caixa, até não parecer satisfeito, se levantar e se jogar em seu piano. Nesta noite, Für Elise de Bethoveen deu as mãos ao rock e ganhou um ritmo mais acelerado. YOSHIKI fez a dobradinha bateria/piano novamente e então, os acordes de I.V. soaram. O público automaticamente começou a cantar “In the Rain” e “Find the Way”, contracantos do refrão da música tema do aclamado filme Jogos Mortais IV. “Quero ouvir o grito de vocês” – disse o vocalista. – “Gritem!”, “São Paulo!”. Nesse momento, uma bandeira do Brasil, que tinha sido assinada pelos fãs na fila, foi lançada ao palco. ToshI a pegou, abriu e mostrou a todos, enquanto YOSHIKI descia da bateria para olhar a bandeira e balançá-la com vigor. “Brasil!!!!” – gritou ToshI e YOSHIKI desceu do palco para perto dos fãs, só voltando para o chamado conhecido por todos há 20 anos.
“WE ARE....!” “X!” “WE ARE...!” “X!” “WE ARE...!” “X!”
YOSHIKI tomou seu lugar amarrando uma das bandeiras jogadas em sua cintura, enquanto público, ToshI e SUGIZO regiam os gritos do refrão de I.V.. Não era um show qualquer. Todos estavam fazendo aquilo acontecer. Absolutamente fãs e banda conectados por uma língua universal, a música.
“Esta é a música de vocês! We are...!” e X, o grande hino que consagra a metáfora do que é ser louco, apaixonado por X, encerrou a primeira parte do show. Como se fosse ensaiado, todos os fãs mantinham os braços estendidos à espera do refrão que, quando gritava “X!”, fazia com que eles pulassem com os braços em X. “hide!” – chamou ToshI quando o solo começou e ao final ele apresentou cada um dos integrantes. “No baixo... Heath, na guitarra... Pata, na guitarra... SUGIZO, na guitarra... hide, no baixo... Taiji, na bateria... YOSHIKI, nos vocais... ToshI, WE ARE...”.
X fechou a primeira parte do show. Os fãs, alguns esgotados e passando mal, foram se hidratar. Muitos ainda pareciam não acreditar. Os gritos recomeçaram quando YOSHIKI voltou ao palco em um quimono vermelho acompanhado de ToshI segurando e apresentando ao público a bandeira que misturava a do Japão e do Brasil mais o símbolo de X. Depois de rodar e brincar com ela, YOSHIKI a estendeu sobre seu piano e ocupou o seu lugar para conversar com o público, atitude que deixou quase todos perplexos devido ao fato do baterista não ter o hábito de conversar em shows.
“Obrigado por terem vindo” – arriscou em português. Ele pegou uma latinha de guaraná e provou dizendo “Amo guaraná?1 AMO GUARANÁ!”. Todos irromperam em gritos de “Guaraná” por todo o local. “Muito, muito obrigado mesmo por estarem aqui. Nós estamos esperando por esse momento há muito tempo mesmo2. Bem, hum... quando eu estava twitando, o Brasil me enviou as mensagens mais apaixonadas.” O público, claro, adorou.“Onde estão minhas enfermeiras?” Ele riu, envergonhado.“Estou apenas brincando. Bem, foi uma piada. Ok. Então, bem, o X JAPAN se separou há muito tempo, há mais de doze ano. Então, nós dissemos adeus ao hide. Então, subitamente, nós tivemos que dizer adeus ao nosso Taiji. Mas, em nossos corações, em nossas almas somos gratos a eles. E com vocês e conosco, vamos tocar juntos. Por causa de vocês, ainda estamos tocando, então continuaremos a tocar, estaremos tocando mesmo! Nós balançamos o mundo! WE ARE...!” ao que o público prontamente respondeu “X!”. A cada vez que YOSHIKI repetia, o grito ia mais alto, mesmo ele dizendo, em desafio, que não escutava a plateia. “Amo vocês”.
Foi aí que veio talvez a sequência de homenagens mais bonita que poderiam ser feitas aos integrantes que infelizmente já haviam nos deixado. Para começar, Forever Love. YOSHIKI passou seus dedos pelo piano, os acordes se desenhando calmamente. Assim que a melodia deu início à parte em que as letras tomavam forma, o público começou a cantar em japonês, tornando aquela homenagem como deles também. YOSHIKI olhava para eles, incentivando-os. ToshI assumiu na segunda estrofe, já visivelmente emocionado, com a voz tremendo e por trás de seus óculos as lágrimas já estavam escorrendo. Talvez, este tenha sido o momento de maior sintonia entre plateia e palco. Todos choraram, cantavam e assim como o vocalista, agradeciam, mas, além disso, todos se empenhavam em passar a mensagem, o mais alto possível, como se os céus estivessem ouvindo de camarote.
A emoção não parou. ENDLESS RAIN reuniu Pata, Heath e SUGIZO sentados nos degraus do palco (formação que muito recordava quando hide tocava com eles), YOSHIKI no piano e ToshI ao seu lado, de pé. No momento em que a canção começou, vários balões amarelos e vermelhos pipocaram na multidão, dando um colorido ao cenário. A canção era a perfeita homenagem “Chuva sem fim, me deixe esquecer todo o ódio e toda a tristeza”. No momento em que gritou Taiji, o vocalista tinha acabado de cantar “Acordei do meu sonho/ Não posso me encontrar sem você”. Mas não só isso, a voz de ToshI já não saia pela emoção e YOSHIKI tocava seu piano chorando. No fim, só o público cantava, ao som do pianista o que acabou por aumentar ainda mais a emoção no coração de todos.YOSHIKI inclusive parou de tocar para chorar, voltando só para finalizar.
Enquanto YOSHIKI ainda chorava em seu piano, e ToshI saia do palco, o som de um violino característico se realçava. O segundo movimento de ART OF LIFE começava pelos dedos de SUGIZO. Apesar de ser um pequeno trecho, os fãs puderam apreciar um dos solos mais loucos e apaixonados que podiam existir. Enquanto passeava os dedos e os braços pelo piano, YOSHIKI parecia à beira de perder o controle, enquanto a música de fundo o acompanhava em sua viagem. Em êxtase, os fãs viram o pianista assumir seu lugar a bateria, com os outros membros assumindo seus postos e a última música da noite explodir. O X JAPAN fechava um dos maiores shows de rock japonês da história do Brasil com a mais apaixonada e violenta de suas músicas.
Ao fundo, o som de Tears no local só fez aumentar o fluxo das lágrimas. Os membros da banda estavam silenciosos, mas aos poucos despertavam e se mexiam, acenando para a plateia, sendo o baterista o único caído no chão. SUGIZO pegou sua máquina para tirar fotos e presentes foram atirados ao palco. Várias fotos foram tiradas, inclusive a da banda com todo o público fazendo o X com os braços. O famoso pulinho no final também foi dado, ou seja, tudo respeitando a etiqueta dos shows que vinham acontecendo na turnê. Até as loucuras do baterista. YOSHIKI pulou duas vezes na plateia, sendo praticamente reverenciado, levando como mencionou em seu twitter, várias cicatrizes do show no Brasil.
Em vários momentos, durante o show, os integrantes deixaram nas mãos dos brasileiros. YOSHIKI fazia um break, que era seguido pelos demais, e segurava um ritmo suave na bateria, mas marcado, e deixavam o público demonstrar seu amor. ToshI gritava pelo público e chorava. SUGIZO e Heath dançavam pelo palco e Pata apesar de sua usual timidez, interagiu com as pessoas, sorrindo diversas vezes por baixo de seu bigode. Os fãs, com certeza, sentiram a falta que hide e Taiji fazem. O boneco do querido pink spider no fundo só trouxe nostalgia principalmente na homenagem que veio após o MC. Contudo, eles estavam ali, no ritmo, na letra, na melodia, harmonia, mas principalmente, no coração de todos.
X JAPAN, mesmo na falta de dois amados amigos, derrubou as críticas de que não daria certo em sua nova formação. Em todo show, inclusive, SUGIZO foi autêntico. Em momento nenhum, em seus dois anos acompanhando o X JAPAN, o guitarrista mudou o seu estilo. Pelo contrário, com todo o seu jeito, seus solos de tirar o fôlego, rápidos e firmes, SUGIZO emprestou seu talento e característica ao X. Mais do que nunca, nesse show, ao lado do boneco do saudoso hide, o guitarrista disse: “Não estou substituindo ninguém” em suas ações. Para os que tinham dúvidas e insistiam em dizer que SUGIZO nunca seria do X ou que o X nunca seria mais o mesmo, o teimoso japonês provou que nunca quis isso. Apesar de seu lindo passado e suas lindas composições, a frente de todos nessa turnê se apresentou um novo X com mais certezas que dúvidas, mais força, mais ousadia.
Setlist:
1. A Nova Introdução
2. JADE
3. Rusty Nail
4. Silent Jealousy
5. DRAIN
6. Solo de Violino (SUGIZO)
7. Solo de Piano (YOSHIKI)
8. KURENAI
9. BORN TO BE FREE
10. Solo de bateria (YOSHIKI)
11. I.V.
12. X
Encore:
13. Forever Love
14. ENDLESS RAIN
15. ART OF LIFE (2º movimento)
Ainda tocaram ao fundo: Tears (Versão em inglês) e Forever Love (Versão acústica).
Nota da Autora:
1 Na fila, os fãs receberam garrafas de guaraná que foram entregues por staffs da organização, pois as pessoas estavam esperando na fila há muito tempo pelo show. YOSHIKI declarou no show e em entrevistas que ama guaraná.
2 Na verdade, YOSHIKI fala “Estamos procurando por esse momento a um tempo muito grande”, mas o que ele quer dizer é que estão esperando há muito tempo.
A autora agradece a todos aqueles que compartilharam suas experiências para tornar esse LIVE REPORT possível.























