MONO na Estônia

entrevista - 12.08.2008 09:00

Uma entrevista com a banda de post-rock MONO antes de sua apresentação em um festival na Estônia.

O JaME teve a chance de entrevistar o guitarrista Takaakira "Taka" Goto, membro da banda de post-rock MONO antes de sua apresentação no Plink Plonk festival em Tartu, Estônia.


Obrigado pelo encontro. Hoje vocês tocarão em um festival na Estônia, como isso aconteceu?

Taka: Você sabe, nós anunciamos, talvez ano passado, que nós íamos parar de fazer turnês em 2008 e estávamos ficando entediados. E então alguém nos contatou e nos convidou, ele disse "Vocês querem tocar aqui?" e nós dissemos sim, porque nós nunca estivemos aqui e, você conhece Arvo Part? Ele é um compositor antigo, eu sou um grande fã dele, ele nasceu aqui. Não aqui, em Tallin, e por isso eu fiquei tão interessado.

E o que achou?

Taka: É totalmente diferente de Tóquio. Nós fomos para Cingapura na semana passada, então me senti como se fosse a mesma coisa de Tóquio, muito grande, muito limpa. Mas aqui parece uma pequena vila, eu me sinto bem! (risos)

Durante a última turnê e até agora, vocês visitaram vários novos países. Como foi isso?

Taka: Na verdade nós queríamos tocar em alguns países asiáticos, porque por um bom tempo nós não podíamos, apesar que nós estávamos viajando bastante. E também mesmo sendo muito perto do Japão, nós não podíamos ir para Indonésia, Malásia, Cingapura. Nós não esperávamos, agora as pessoas estão esperando por nós. É tipo, rock instrumental? Eu não esperava, todos as pessoas que nos entrevistavam me falavam tipo, "Você sabe, post-rock é muito popular por aqui agora." Eu não sabia disso, mas em todos os países muitas pessoas vieram nos ver, então foi muito excitante. Foi basicamente muito divertido.

Quando vocês saem em turnê, o que o seu público significa para você? O que eles te dão?

Taka: Simplesmente energia. Eles nos tornam muito confiantes. Porque agora nós estamos muito preocupados, nós estamos começando a escrever novas músicas e nós queremos melhorar para o próximo álbum. E agora nós estamos compondo, nós estamos tentando gravar, e nós só estamos esperando pelo próximo álbum e pela próxima turnê, nós queremos mudar alguma coisa. Mas sempre quando estamos ensaiando e pensando bastante no estúdio no Japão, eu me sinto como se estivesse perdendo cada vez mais confiança, e começo a me preocupar bastante. Porque quando nós estamos em turnê, todos os dias nós podemos conhecer nossos amigos diretamente, e nossos fãs, isso nos faz sentir como "Oh nós podemos!" E pessoas sempre me dão energia.

E o que vocês querem das às pessoas?

Taka: Basicamente nós não mudamos muito. Nós sempre queremos trazer alegria para as pessoas. Algumas pessoas estão sempre chorando e fechando os olhos, algumas pessoas estão gritando...Nós queremos nos expressar como se estivéssemos usando um filme. Enquanto ninguém estiver falando e é claro, ninguém estiver andando pelo show, enquanto todos estiverem curtindo muito a nossa música e o show, e sendo sempre muito respeitosos...eu sempre sinto que nós podemos nos conectar com o público. Porque nós somos simplesmente humanos, e você é humano também. Nós não somos apenas um bando para entreter pessoas. (risos)

E o que você sente quando você está tocando?

Taka: A performance é algo que não podemos controlar. Na vida real, você sabe, nós não podemos chorar muito, mesmo quando as vezes eu quero chorar, eu não posso, ou as vezes tem algo que eu quero reclamar, mas como eu não sou mais uma criança, eu não posso dizer. Mas através da música, nós podemos descrever qualquer coisa.

Vocês realmente fazem muitas turnês. Não chega uma hora que vocês querem parar e apenas relaxar?

Taka: Não, não! Na verdade nesse ano nós íamos tentar e relaxar...mas não conseguimos. (risos)

Exatamente! Vocês disseram que não iriam fazer turnês para se concentrar nas gravações, mas agora eu vejo que vocês estão participando cada vez mais de festivais!

Taka: (risos) É, infelizmente, ou felizmente, nós sempre recebemos muitas ofertas. Mas se as pessoas realmente quiserem, nós temos que ir. Especialmente se nós estivermos visitando o país pela primeira vez, é assim.

Então o seu novo álbum deve ser lançado em breve. Quais são os principais temas e idéias por trás dele?

Taka: Minha primeira idéia era que eu queria fazer um álbum mais positivo. Com mais esperança, não sombrio, mais alegria, mais esperança, mais luz...Mas eu não sei, talvez as pessoas ainda pensem que é sombrio (risos). Eu acho que em 2009 as pessoas vão querer coisas mais alegres. Porque de algum modo eu sinto que o clima no mundo é de muita preocupação, todos estão se sentindo mal, e as pessoas querem mais esperança. Por isso eu queria fazê-lo deste jeito.

Quais foram as inspirações para o álbum?

Taka: Sempre o primeiro tema nas nossas músicas é bem sombrio. Nossas músicas são sempre como um túnel, como se as pessoas estivessem caminhando em um túnel muito longo e escuro, e finalmente as pessoas encontram uma pequena luz e "Oh!", é assim, "finalmente nós podemos alcançá-la!". Mas no nosso próximo álbum, eu quero descrever algo mais alegre. Me desculpe, eu não consigo explicar isso. (risos)

Sim, é difícil. Isso torna o novo álbum bem diferente dos anteriores, existem outras coisas que são diferentes?

Taka: Ele vai ser mais sinfônico. Nós já gravamos quatro músicas com Steve Albini em Chicago, e nós usamos uma orquestra enorme, e soa como uma verdadeira sinfonia, como se fosse uma igreja, mas mais poderosa. Mais tipo música clássica. Mas bem barulhenta! (risos)

Na verdade nós não sabemos muito sobre o seu álbum, exceto que ele será lançado em breve, você poderia nos dar mais alguma informação?

Taka: Bem, ele será lançado talvez em Março na Europa, em Abril no Japão, EUA e Canadá, talvez. E nós vamos preparar uma longa história. Nós sempre escrevemos uma história que é a mesma da música, mas nunca mostramos, nós nunca colocamos isso no CD. Nós só colocamos umas pistas, tipo os desenhos. Mas eu acho que da próxima vez nós vamos colocar uma história de verdade, como um livro, eu acho que as pessoas poderão entender melhor.

Legal. As suas capas são sempre muito interessantes, como vocês as criam? Quem as desenha?

Taka: O desenhista é o mesmo do Explosions In the Sky, ele é um grande amigo nosso. E sempre eu mando a história e a música para ele, e eu escrevo algumas das minhas idéias para descrevê-la. "Eu quero que você desenhe como se um cara estivesse caído na neve" ou algo assim.

Em cada uma de suas entrevistas te perguntam isso, mas como vocês criam sua música, quero dizer, o quanto cada membro contribui nas músicas?

Taka: Bem, primeiro eu faço alguma demo, e então eu mando para todos os membros, e depois eu escrevo, eu tento descrever ela como a cena de um filme. E quando começamos a gravar, eles já tem suas idéias sobre a história...e é isso (risos) Eles são como minha família, é muito fácil para eles entenderem a minha imaginação.

Na sua última turnê vocês foram para a Rússia...

Taka: Finalmente!

Como foi?

Taka: Foi muito bom, eu acho. Mas os entrevistadores russos são...ruins (risos). Mas foi muito engraçado, nós chegamos lá pela meia-noite, fomos direto para o hotel, acordamos e fomos para o local do show. Aí eles começaram a me entrevistar bastante. "O que você achou da Rússia?, eu disse "Sabe, eu só cheguei ontem a noite e acabei de acordar e cheguei aqui, eu não acho nada. Só é bem frio". "Por que? Você tem que dizer o que achou da Rússia!" eles disseram. "Me desculpe, eu acabei de chegar". "Tá legal, a entrevista está cancelada", de repente eles ficaram bravos comigo! (risos)

Isso é horrível!

Taka: É, foi coisa da TV. Mesmo sendo uma entrevista para a TV eles cancelaram! Desculpa (risos). Mas o público foi extremamente legal. Eu acho que os russos são muito emotivos.

Vocês lançaram gone na Rússia, e você também iriam lançar You Are There. Quando isso será lançado?

Taka: É nós ainda estamos esperando! Eu não tenho idéia...a gravadora é muito grande, mas ainda estamos esperando. Ele era para ter sido lançado ano passado, mas não foi.

Vocês tem mais planos para lançar CDs na Rússia?

Taka: Talvez, eu acho que vamos continuar com o novo álbum, mas nós não temos certeza...Por causa de You Are There! (risos)

Espero que tudo dê certo! Você mencionou que sua música é bem cinemática, e sua canção A thousand paper cranes foi incluída na trilha sonora de um filme. O que você acha disso?

Taka: Eu acho que é bom. Porque nós começamos a escrever essa música depois dos ataques de 11 de Setembro, em 2002 ou 2003, naquela época nós não tínhamos confiança sobre os japoneses. Porque eu queria esconder totalmente, "Eu não sou japonês" (esconde o rosto com as mãos). Porque nós queríamos tocar na Europa e na América, mas não conseguíamos tocar no exterior por que éramos japoneses. É bem estranho, porque bandas americanas e européias viajam bastante para o Japão, mas os selos europeus e americanos não querem bandas japonesas. Mas eu queria! Meu sonho era me apresentar ao redor do mundo, e que as pessoas ouvissem os meus CDs...De qualquer jeito, nós começamos a fazer turnês pelos EUA e Europa, e encontramos um público, mesmo 10 ou 50 pessoas, e aí foi crescendo, os fãs começaram a aparecem. E finalmente entendemos que conseguiríamos. Nós podemos nos conectar com o público, sem fronteiras, sem culturas, sem a história, sem línguas...E a partir daí eu quis começar a explicar sobre as coisas japonesas. E qual é a melhor maneira de descrever, de se comunicar, qual é a maneira mais importante de explicar? Eu costumava morar perto do Hiroshima, muito, muito perto do museu da bomba atômica, apenas 5 minutos de caminhada, e eu sempre ia ver o lugar da bomba atômica. E então eu comecei a contar a história da bomba atômica. Porque esta foi a primeira vez que eu tive confiança em mim mesmo. "Nós somos japoneses, queremos mostrar coisas japonesas." E aí começamos, descrevendo a história dos mil pássaros de dobradura, a história da Segunda Guerra, a história de Hiroshima...É claro que algumas pessoas que perguntavam "Vocês estão fazendo propaganda?" ou algo assim, essas entrevistas não foram fáceis. Foi muito difícil. Mas eu só queria explicar como uma amizade, é como apenas eu e você, a amizade é capaz de proteger o mundo. Mesmo se a Rússia e o Japão, mesmo se tivermos que lutar um contra o outro, eu não quero lutar com você, porque nós nos conhecemos, é tipo assim, é muito simples. Nós colocamos instruções de como fazer os pássaros de dobradura no CD, e depois do lançamento, quando estávamos fazendo as turnês na Europa e América, todos estavam fazendo as dobraduras e começaram a trazê-las bastante para nós; Eu acho que é bom para eles, para proteger o mundo, eu estou pensando muito sobre a amizade.

A músca foi usada no filme "Snow Angels", como isso aconteceu?

Taka: Nós só recebemos um e-mail...Na verdade, eu ainda não vi o filme (risos).

Então você não está excitado em fazer músicas para filmes?

Taka: Não, não, eu estou muito excitado! Mas por alguma razão...eles não me mandaram o filme. Eu quero assisti-lo, mas ainda estou esperando.

Muitos fãs estão curiosos sobre uma música de vocês, Black Rain, sobre o que a mulher está dizendo...

Taka: As letras? A cantora também é a cantora do Uzeda, uma banda italiana, e nós somos amigos e quando eles tocaram no Japão, eles ficaram na minha casa por duas semanas. E nós ficamos conversando sobre música, a vida, amor e tudo. Então eu estava escrevendo a demo de Black Rain e de repente eu tive essa idéia, "Você pode fazer as letras e gravar comigo?" eu perguntei, e ela disse sim. Eu estava tentando explicar sobre a história de Hiroshima, mas nada em particular, eu acho que era só a imaginação dela...E eu não acho que deveríamos explicar nada. Alguns mistérios deixam as pessoas mais interessadas.

Eu ouvi falar sobre o seu projeto solo, Left. O que ele é exatamente?

Taka: (risos) É totalmente bobo. Porque eu fiz o álbum em apenas um dia, era tipo uma experiência, uma experiência humana. Eu não comi, não dormi, só fumei. E durante quase 24 horas eu só improvisei. E eu não lancei isso oficialmente, só fiz um lançamento pelo correio para os japoneses. Mas alguns caras da Europa e da América o compraram, acho que no eBay...(risos)

Eu adoraria escutar isso!

Taka: Você também? (risos) Não, não escute, é muito bobo. É apenas a minha experiência humana.

E então você não vai mais fazer nada com esse projeto solo?

Taka: Não, não. Mas é um hábito meu. Eu estou sempre escrevendo músicas.

Em sua última entrevista, você falou algumas palavras sobre música e comercialismo, e parece que você tem uma opinião muito forte sobre isso. Você poderia explicar melhor isso?

Taka: É claro, negócio é negócio, música é música, mas todos precisam de dinheiro. Eu não quero fazer música por dinheiro, mas eu preciso de dinheiro, a relação é bem estranha. Se alguém pegasse o meu sonho, alguma gravadora major, se eles quiserem me controlar "Você tem que escrever uma música curta para fazer um hit" ou algo do tipo, eu vou dizer "Não!" Mas se nós não tivéssemos dinheiro, nós teríamos que procurar um trabalho, e aí não poderíamos nos concentrar em fazer música. A relação é essa.

Bem, você tem grandes públicos assistindo os seus shows, e você está trabalhando com pessoas muito famosas como Steve Albini, não é difícil manter os pés no chão e se concentrar na música?

Taka: Eu acho que todo mundo, que faz música, realmente quer fazer sucesso. Toda banda, todo artista realmente quer que as pessoas escutem suas músicas. Eu não ligo, eu apenas componho nossas canções. E por muita sorte, temos muitas pessoas que querem ver a nossa banda e é por isso que podemos continuar lançando álbuns e continuar a fazer turnês. Nós não podemos controlar isso, tudo acontece naturalmente. É por isso que eu sempre digo, quando as pessoas perguntam "Qual é o seu sonho?", "Meu sonho é agora". Sempre parece que estou sonhando. Não tenho medo. Eu não estou preocupado com coisas musicais. A música está sempre na minha mente, e eu quero expressar o que eu penso, porque eu imagino muitas coisas e senão eu ia pff! (finge que sua cabeça está explodindo). Mas eu não estou preocupado com o nosso futuro.

O que você acha das bandas japonesas em geral?

Taka: Recentemente várias bandas instrumentais apareceram e alguma revista famosa de rock escolheu alguns artistas e é tipo "Uma cena de rock instrumental apareceu!" Hey, nós estamos tocando isso há 10 anos, é tipo...agora? Agora que surgiu? E muitas bandas que copiam o MONO apareceram., é assim. Mas eu não acho que isso seja ruim. 10 anos atrás nós começamos a banda e não conseguíamos tocar em clubes para 200 pessoas porque não tínhamos um vocalista. A cultura japonesa é assim, é muito lenta. Se a cultura americana está aqui em cima (levanta a mão), a cultura japonesa está aqui em baixo (abaixa a mão). É por isso que tivemos que começar a tocar na América. Agora todos conhecem o MONO. Porque nós tocamos nos EUA e na Europa, e eles não podem. É uma coisa bem japonesa. E agora 10 se passaram, e as pessoas já falam "Você conhece o MONO? Você conhece o MONO?" é assim. Mas eu, e nós, nós não mudamos em nada, nós só tocamos música. Eu não ligo. Agora quando tocamos um show no Japão, 1500 pessoas comparecem, e talvez daqui a dois anos apenas 200 compareçam, eu não ligo. Porque nós não podemos controlar nada.

Quando vocês farão sua próxima turnê?

Taka: Depois do lançamento, nós vamos começar uma turnê na Inglaterra no meio de Março, depois Europa em Abril e Maio e por aí vai. Nós vamos começar uma turnê na primavera e vamos continuar por seis meses.

Como sempre. Já que você mencionou, ano que vem acontecerá o décimo aniversário da banda. Você irão fazer alguma coisa especial?

Taka: Claro. Talvez eu já possa falar. Nós vamos tocar um show especial com uma orquestra, em Nova York em uma grande igreja, apenas um show. Em Maio. Apenas em Nova York.

Você poderia falar algumas palavras para os seus fãs?

Taka: Nós não podemos esperar para conhecer vocês pessoal. Eu adoro essas coisas, nós estamos ficando mais próximos. Recentemente, as pessoas que estão sempre nos shows, eu estou começando a me lembrar deles. Eu estou até começando a lembrar de seus nomes. Nós estamos ansiosos para conhecer vocês.

Obrigado por sentar-se conosco!

Taka: Muito obrigado!


Obrigado ao MONO, Reiko Kudo e Joris da Conspiracy Records. Obrigado à Darina Chesnokova pela ajuda técnica.
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